Crítica: Euphoria — 1ª Temporada

Euphoria é diferente de qualquer outra série atual do gênero. Temas polêmicos e presentes no cotidiano dos jovens da nossa sociedade são trabalhados de forma bruta, sem se preocupar tanto em ser didático. Não existem lições de moral ou jornadas do herói. Os personagens agem e lidam com as consequências de seus atos, assim como na vida real. Esse é um dos fatores que auxiliam a série a não soar clichê ou como se quisesse infligir culpa a quem a assiste. Da forma mais honesta que a ficção e a narrativa permitem, as informações estão todas lá, os altos e baixos, ao longo de oito episódios, para que o espectador interprete e faça o que quiser com aquele conteúdo.

Assistir à Euphoria é uma experiência. Mergulhamos tanto nas histórias dos personagens que quando acabamos de assistir a série, ela nos deixa com uma sensação de vazio. Para que seja possível conhecermos melhor esses personagens, o recurso narrativo de flashbacks é bastante utilizado. Rue, uma das protagonistas, é tão interessante e caótica que, logo de cara, já gera uma reação no espectador, seja positiva ou não. Ela lida com transtornos psicológicos e com seu vício em drogas. Quando Rue (Zendaya) conhece Jules (Hunter Schafer), ela sente vontade de melhorar e permanecer sóbria. Jules, no entanto, possui obstáculos próprios para superar, como o processo de aceitação e transição de sua sexualidade. As coisas se complicam ainda mais quando o caminho das duas cruza com o de Nate (Jacob Elordi). Ele é pressionado, desde cedo, pelo pai, a ser um exemplo de determinação. Essa pressão somada ao fato dos segredos que ele descobre sobre sua família fazem com que ele se torne uma pessoa instável.

Não demorou muito para que a série se popularizasse nas redes sociais e o meme da “Make de Euphoria” também. Apesar de não se tratar de uma série sobre maquiagem, esse é, sem dúvidas, um elemento que chama a atenção na caracterização dos personagens. Contribui, também, para o apelo estético da série. Sim, isso é muito importante para o público alvo de Euphoria e a direção de fotografia sabe disso. Tão significante quanto apreciar belas cenas é poder encher as redes sociais, como o Pinterest, com imagens delas depois. Cores neon e luzes fortes são os destaques em diversas cenas, dando a sensação de estarmos em uma eterna balada. Dependendo do contexto, essas cenas podem parecer sufocantes, mas também podem causar — como o título sugere — euforia.

Além do vício em drogas e álcool, outros assuntos importantes e necessários são abordados. Como o foco nos personagens vai mudando a cada episódio, vamos nos familiarizando com eles. Kat (Barbie Ferreira) lida com as consequências e “benefícios” que a superexposição na internet pode trazer. Maddy (Alexa Demie) se vê em um relacionamento abusivo do qual ela não sabe como sair. Cassie, interpretada pela promissora Sydney Sweener, tem vídeos e fotos íntimas vazadas e convive com uma família disfuncional.

Não teria como terminar esse texto sem dedicar um espaço para expressar o quanto é impactante o episódio final da temporada. As conclusões dos dramas dos personagens não são óbvias ou forçadas. Assim como o restante da série, a finalização aproxima-se mais da naturalidade da vida real, onde as coisas continuam acontecendo num fluxo constante. Mostrando um pouco da perspectiva de Leslie (Nika King), a carga emocional do episódio é forte e mostra, inclusive, momentos cruciais da vida da protagonista e de sua família. Outro destaque do episódio é o ator Jacob Elordi, que era mais conhecido, até então, pelo seu papel em A Barraca do Beijo, da Netflix. Confesso que não esperava que a atuação dele fosse ser tão boa, mas qualquer dúvida que eu tinha foi extinguida pelo ator. Principalmente, na cena em que o seu personagem confronta o pai.

A trilha sonora é fantástica durante toda a temporada, mas a escolha de músicas nesse último episódio leva tudo para um outro nível. Os destaques ficam por conta das canções My Body Is A Cage, A Song for You e All For Us, o explosivo dueto entre Zendaya e o cantor Labirinth. Somando isso ao excelente trabalho do coreógrafo Ryan Heffington e o resultado é a cena final, que se trata de um número musical. A versatilidade e qualidade artística de Zendaya ficam ainda mais evidentes nesse momento. Ela participou, inclusive, do processo criativo com o produtor da série Sam Levinson. De tirar o fôlego, do começo ao fim, Euphoria é um sopro de ar fresco na indústria das séries, que mistura brutalidade com o nível técnico impecável já característico da HBO.

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