Pipoclássicos #1 — Festim Diabólico (1948)

Festim Diabólico é um filme onde Alfred Hitchcock se permitiu experimentar. Além de ter sido sua primeira obra colorida, o mestre do suspense usou e abusou de planos sequência, foram utilizados dez. Eu sou um fã assumido desse tipo de plano, ainda mais, como no caso desse longa, quando ele agrega tanto à narrativa. Baseado em uma peça teatral, ele se parece muito com uma. Foi filmado inteiro no mesmo ambiente, o apartamento dos protagonistas. É o segundo filme do diretor a ser gravado nessas condições. O primeiro sendo Um Barco e Nove Destinos, de 1944.

Tudo começa quando dois amigos, Brandon (John Dall) e Phillip (Farley Granger), decidem assassinar seu ex-colega de faculdade, David Kentley (Dick Hogan), com o objetivo de realizar o crime perfeito. Para isso, eles organizam um jantar e convidam os pais e a noiva do homem que eles acabaram de estrangular. Festim Diabólico marca o começo da parceria de Hitchcock com James Stewart, o astro de vários de seus maiores clássicos nos anos 50. Aqui, ele interpreta Rupert Cadell, um antigo professor de Brandon. Aos poucos, os convidados começam a estranhar a ausência de David e a questionar os anfitriões sobre o paradeiro do rapaz.

Como o longa ocorre em tempo real, o espectador acompanha cada momento do jantar e fica aflito durante toda a sua duração. Usando de diálogos que parecem armadilhas, Hitchcook cria um suspense de tensão crescente. Os protagonistas, principalmente Brandon, que pareciam tão seguros de si e intelectualmente superiores aos outros convidados, vão deixando o nervosismo aumentar e isso não passa despercebido pelos outros personagens. A questão da superioridade intelectual, que justificaria o assassinato, é debatida numa discussão interessante sobre Nietzsche e sua teoria do super-homem. possível notar, também, uma possível relação homossexual entre os protagonistas. Algo que era extremamente tabu na época. Nos bastidores, os membros da equipe e elenco evitavam falar sobre o tópico diretamente e se referiam ao assunto como “aquilo”.

Uma das marcas do diretor é de fazer uma aparição em seus filmes. Neste, ele pode ser visto no começo do longa andando na rua em frente ao apartamento onde a história acontece. No seu lançamento, o filme foi recebido com críticas mistas e passou muito tempo fora do acesso do público. Ele faz parte da lista de cinco filmes perdidos de Hitchcock, que só foram relançados após sua morte em 1980.

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