Pipoclássicos #3 – A Doce Vida (1960)

Ter uma obra-prima em seu currículo é um privilégio que apenas alguns diretores detém. Ter mais de uma dessas obras para chamar de sua é reservado somente para as lendas do cinema. Esse é o caso de Federico Fellini. Nascido e criado em Rimini, no norte da Itália, ele começou a carreira como desenhista antes de tornar-se um cineasta em Roma. Apesar de já ter ouvido falar do diretor, eu ainda não havia sido apresentado ao seu trabalho. Isso mudou, recentemente, quando um grande amigo e entusiasta da sétima arte me indicou os filmes de um dos seus diretores favoritos. Começou, assim, minha experiência com Fellini.

Na década de 50, ele já havia lançado alguns de seus filmes mais importantes, como A Estrada da Vida (1954) e Noites de Cabíria (1957). Os dois venceram na categoria de Melhor Filme Estrangeiro do Oscar. No entanto, em 1960, sua carreira foi elevada a um outro nível com o lançamento do celebrado e icônico A Doce Vida. Fellini abandona a linearidade convencional para nos introduzir à epopeia decadente de um carismático e charmoso Marcello (Marcello Mastroianni).

La Dolce Vita, o título original do longa, é um espetáculo sobre a espetacularização. Acompanhamos diferentes momentos, pela perspectiva de Marcello, da noite e da alta sociedade de Roma. O protagonista é um jornalista de tabloides sobre famosos e escreve histórias sensacionalistas. Ele sonha em ser um escritor “sério”, mas essa ambição acaba sendo sufocada em meio a tudo que acontece ao seu redor. Quando ele começa a cobrir a chegada da atriz Sylvia Rank (Anita Ekberg), vinda de Hollywood, as críticas que o diretor pretendia fazer a esse estilo de vida dos ricos e famosos se tornam mais claras.

Com uma estrutura similar a de episódios, a maioria das noites de Marcello começam ou terminam em uma festa repleta de pessoas extravagantes e infelizes, que representam a sociedade romana no período após a Segunda Guerra Mundial, com uma certa influência dos Estados Unidos sobre o país. Ele acredita ser diferente dessas pessoas, mas ao pouco percebe que está inserido naquele meio mais do que gostaria. Começa então uma busca interna por algo que seja real. Apesar de uma vida sexual ativa e de conquistar várias mulheres, o jornalista não consegue se comunicar ou se conectar de verdade com alguém. Nem mesmo com o pai que surge em dado momento da trama.

Ao mesmo tempo que mostra o lado sombrio da fama, Fellini constrói uma personagem como Sylvia. Uma mulher irresistível, carismática e sedutora. Como não querer saber tudo sobre essa mulher? Como não acompanhá-la, mesmo que pela lente dos paparazzi que a perseguem? A cena em que ela se banha na fonte é como observar uma deusa que desceu dos céus para encantar os humanos que nada podem fazer a não ser admirá-la.

A cena que eu citei é uma das mais marcantes na história do cinema. Confesso que tenho dificuldade em conseguir descrevê-la de forma que faça juz à sua grandeza. Então recomendo que a assistam. O trabalho de cinematografia de Otello Martelli é fenomenal. Ele, inclusive, trabalhou com Fellini em diversos outros filmes e com Roberto Rossellini, outro aclamado diretor italiano. A sequência inicial e a final do longa são dois grandes exemplos do deleite visual que estamos assistindo.

Durante as três horas de duração, somos agraciados com um belo estudo da humanidade, das pessoas e de momentos. A falta de linearidade pode causar estranheza no começo, mas só até você perceber que o filme se trata sobre a vida, que não é linear de forma alguma. É repleta de histórias e, nesse filme, elas são contadas com genialidade.

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