Crítica: Meu Pai (2020)

Meu Pai é um filme sobre envelhecer, perder partes de si mesmo, como lidar com a solidão e como torna-se frágil a mente de alguém que lida com tudo isso ao mesmo tempo. Dirigido pelo francês Florian Zeller, o longa é protagonizado por Anthony (Anthony Hopkins), um homem de 81 anos que vive em seu apartamento em Londres e tem por única companhia a sua filha Anne (Olivia Colman). Quando ela decide ir morar em Paris, os problemas começam, já que Anthony tem dificuldade em se adaptar com outras pessoas cuidando dele.


Apesar da premissa indicar que o filme trataria de um drama familiar, logo somos surpreendidos por cenas que parecem ser desconexas ou estar fora de uma ordem cronológica habitual. A cada cena fica mais exposta a fragilidade emocional e mental em que o protagonista se encontra e de como a dependência dele na filha afeta a vida dos dois. Anne ama o seu pai e vê-lo daquele jeito lhe causa dor e isso é visível, mas ao mesmo tempo ela sente que precisa parar de sacrificar sua própria vida. Esse é um retrato muito comum na vida das pessoas que convivem com entes queridos em idade mais avançada e permite com que o espectador engaje com a história e fique instigado a descobrir o que está acontecendo.

Anthony Hopkins é um dos melhores atores de todos os tempos. Conhecido por grandes papéis em filmes como Silêncio dos Inocentes e Vestígios do Dia, ele entrega uma atuação crua e grandiosa. Transitando entre diversas emoções, ele assume o papel de um homem que sente que já não é mais o mesmo que um dia foi e luta para manter o que ele ainda tem de si mesmo. Em uma das falas mais tocantes dos últimos tempos no cinema, seu
personagem diz: “Eu sinto como se estivesse perdendo todas as minhas folhas. As raízes, o vento e a chuva. Já não sei mais o que está acontecendo”.


Quando Anthony começa a desconfiar das intenções da própria filha, a atriz Olivia Colman, vencedora do Oscar e presente em diversas obras aclamadas pela crítica, consegue fazer com que saibamos o quanto isso afeta a personagem. Os diálogos entre os dois, além de bem escritos, são entregues com uma química digna do tamanho da dupla.


Florian Zeller mistura, com maestria, a cronologia das cenas e o tempo em que elas ocorrem, nos desafiando a entender o que está acontecendo, de uma forma que o diretor Christopher Nolan tenta fazer constantemente. A repetição de cenas no mesmo ambiente, mas com móveis trocados de lugar, ou de um ponto de vista diferente são formas sutis de representar como cada pessoa absorve um acontecimento de forma diferente.

O ato final do filme é doloroso. É difícil de assistir na mesma medida em que é de grande qualidade. As dúvidas que vão sendo criadas durante as 1h37 de duração começam a ser respondidas e dão lugar à reflexão de como é estar no lugar de outra pessoa, tentar imaginar como a mente dela funciona, mesmo que não consigamos entender. Tocante, inovador e com atuações poderosas, Meu Pai é um daqueles filmes que, provavelmente, não serão a primeira pedida para reassistir e mesmo assim não conseguiremos esquecer.

cinco estrelas
5/5

Trailer:

4 thoughts on “Crítica: Meu Pai (2020)

  • 14/04/2021 em 17:33
    Permalink

    que narrativa tocante!! tua crítica me deixou com ainda mais vontade de ver o filme

    Resposta
  • 14/04/2021 em 17:41
    Permalink

    Tô com muita vontade de assistir esse filme! O trailer me arrepiou. Adorei a crítica!

    Resposta
  • 14/04/2021 em 17:51
    Permalink

    Nossa amei a premissa! Gostaria muito de ver no cinema pois seria uma experiência muito foda!

    Confesso que não ia ver esse filme, mas depois dessa crítica vou procurar ele!

    Resposta
  • Pingback: Crítica: Os 7 de Chicago (2020) - Leia na íntegra no pipocainan

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *