Crítica: Candyman (2021) atualiza lenda e concebe um dos melhores horrores do ano

2021 tem sido um ano atípico para o cinema. Com o retorno gradual das salas, A Lenda de Candyman estreou em agosto, com um ano e dois meses de atraso em relação à sua data original. Na época, assim como agora, o nome de Jordan Peele constava no mais alto patamar de Hollywood. Não é surpresa, então, que A Lenda de Candyman tenha sido um sucesso de bilheteria, estampando o nome de Peele como produtor do longa.

Logo de cara, somos apresentados a Chicago através de ângulos vertiginosos em belos contra plongées da diretora Nia DaCosta. A fotografia da cidade, inclusive, atua como um personagem na ambientação do longa, de maneira similar à obra original. Do luxo dos arranha-céus do centro, vamos para a marginal Cabrini-Green, um conjunto habitacional nos guetos.

É a partir da ambientação sinistra e da atuação macabra de Yahya Abdul-Mateen II que DaCosta consegue ditar o tom que será levado nos 91 minutos de A Lenda de Candyman. Uma sequência direta de O Mistério de Candyman, dirigido por Bernard Rose em 1992, o novo longa cria sua própria sustentação. Acompanhamos Anthony McCoy, um pintor em busca de inspiração que encontra a história de Candyman, um lendário espírito obstinado em conseguir sua vingança. 

Com âncoras desde a escravidão, a figura de Candyman retrata o abuso para com negros através dos séculos. Afinal, sua morte é o produto de um crime de ódio a partir de um amor interracial. Aqui entra o ponto mais sensível do filme: como abordar a temática sem parecer um cliché preguiçoso ou algo didático? O roteiro de DaCosta, Peele e Win Rosenfeld exprime o seu receio de soar repetitivo ou fraco através das obras de arte do protagonista, em uma espécie de autoconsciência metalinguística. É preciso destacar também a dinâmica proposta pela escrita do trio. O constante uso de elipses temporais e cortes brutos fazem a obra fluir de maneira orgânica por todo o seu andamento.

Contribuindo para a atmosfera, a figura do homem negro com um gancho aparece sem introdução. De súbito, lá está ele, observando suas vítimas através dos espelhos. É curioso analisar que a especulação acerca do personagem-título acontece visualmente na exposição de reflexos, mas essa técnica deixa de ser utilizada na medida que o longa confirma a presença de Candyman entre os protagonistas.

Embora perca parte de sua força na resolução, A Lenda de Candyman consegue se impor em um ano turbulento ao atualizar o personagem lendário. Para conceber sua obra, Nia DaCosta conta também com uma bela performance de  Yahya Abdul-Mateen II no papel principal e deixa em aberto a possibilidade de uma nova grande franquia moderna de horror.

4/5

Trailer:

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